A serviço da transformação: comunidades brasileiras aprofundam aprendizados sobre ação social

Entre os dias 18 e 20 de julho de 2025, representantes de comunidades bahá’ís de Alagoas, Rio Grande do Sul, São Paulo e do Distrito Federal participaram de uma reunião nacional para compartilhar aprendizados sobre como o fortalecimento dos processos educacionais bahá’ís tem contribuído para desenvolver as capacidades necessárias à sustentação de esforços de ação social em seus territórios. A diversidade de contextos presentes refletiu um esforço comum: compreender como traduzir os Ensinamentos de Bahá’u’lláh em práticas concretas que respondam aos desafios espirituais e materiais das populações locais, promovendo seu progresso sustentável.

As comunidades representadas vêm desenvolvendo experiências notáveis em áreas geográficas chamadas “agrupamentos” — territórios em que se busca fomentar uma cultura de aprendizado coletivo sobre como populações inteiras podem reconhecer, compreender e agir sobre as barreiras sociais, econômicas ou culturais que limitam seu progresso. Nessas experiências, evita-se replicar narrativas externas que frequentemente ignoram as realidades e potencialidades locais. 

Esses agrupamentos têm se distinguido pelo número crescente de atividades educacionais inspiradas nos princípios bahá’ís, pelo protagonismo da população local na busca por soluções aos desafios que enfrentam e por uma abordagem que valoriza as forças e capacidades das comunidades. Em vez de enxergá-las por meio de suas carências, essas experiências têm procurado reconhecer e cultivar os recursos humanos, espirituais e sociais já presentes em cada território.

Atos de serviço realizados nas vizinhanças da Vila do Boa e de Santa Luzia, no Distrito Federal.

Pré-jovens como protagonistas de uma nova cultura

Um dos eixos centrais das conversas foi o programa de empoderamento espiritual e moral de pré-jovens, voltado a adolescentes entre 12 e 15 anos. Nas localidades representadas, esse programa tem inspirado um número crescente de adolescentes a refletirem sobre sua realidade, desenvolverem qualidades espirituais e intelectuais e mobilizarem sua comunidade em torno de atos de serviço.

No Distrito Federal, por exemplo, participantes do programa identificaram a escassez de água em uma creche local e mobilizaram esforços para perfurar um poço e instalar uma bomba de água. Outro grupo realizou uma campanha de arrecadação de absorventes para mulheres em presídios, que ganhou visibilidade na mídia e resultou na elaboração de um projeto de lei no legislativo distrital. Essas iniciativas não surgem de orientações externas, mas de um processo de investigação empreendido pelos próprios jovens, alimentado por textos educativos e um ambiente de apoio contínuo.

Atualmente, só em Brasília, mais de 500 adolescentes participam de cerca de 56 grupos de pré-jovens. À medida que avançam pelo programa, esses adolescentes tornam-se animadores de novos grupos e passam a atuar de forma cada vez mais autônoma, contribuindo para um ciclo contínuo de desenvolvimento e serviço.

Atividades de construção de comunidade no Distrito Federal.

Uma abordagem distinta para o desenvolvimento social

O que distingue esses esforços de outras formas de ação social não é apenas o tipo de atividade realizada, mas o modo como as populações são vistas. As comunidades bahá’ís têm procurado construir uma linguagem e uma prática que valorizem as qualidades e as riquezas dos grupos com os quais interagem e dos quais são parte. Em vez de descrever localidades como Cidade Estrutural ou Vila do Boa a partir de suas ausências — como frequentemente ocorre em diagnósticos sociais —, os participantes da reunião ressaltaram o espírito de solidariedade, a disposição para o serviço e os vínculos profundos entre vizinhos como recursos essenciais para o progresso.

Esse olhar se expressa também nas metodologias utilizadas. Os animadores — jovens que acompanham os grupos de pré-jovens — não são vistos como meros facilitadores de atividades, mas como indivíduos em processo contínuo de capacitação, que vivem na comunidade e participam de diversos espaços de vida coletiva. Sua atuação é sustentada por encontros regulares de reflexão e estudo, e por uma compreensão ampla da transformação social como um processo educativo e espiritual que se dá ao longo do tempo, com protagonismo da população local.

Atividades de construção de comunidade no Rio Grande do Sul.

Quando a comunidade se organiza: redes de cuidado, educação e transformação visível

Nos municípios de Canoas, Esteio e Sapucaia (RS), as ações da comunidade bahá’í têm revelado como a combinação entre a Palavra de Bahá’u’lláh, o envolvimento da população local e a construção gradual de capacidades pode desencadear transformações profundas, rápidas e visíveis.

Ali, mais de 15 mil pessoas estão envolvidas em conversas significativas sobre os princípios espirituais que orientam a vida comunitária. Até abril de 2025, foram registradas 2.549 atividades com o envolvimento direto de mais de 10 mil pessoas. Em quatro centros de intensa atividade — territórios onde se é possível observar um envolvimento expressivo e consistente da população — já se observam avanços notáveis, com o surgimento de grupos de famílias, aulas de educação espiritual para crianças e grupos de pré-jovens em expansão. Em alguns desses locais, já se alcançou a totalidade da população adolescente — algo que, longe de ser apenas quantitativo, tem produzido efeitos transformadores na cultura local.

Esses processos começaram com gestos simples: uma mãe ensinando seus filhos a partir dos livros do programa infantil, uma oração recitada com uma criança no portão de casa, ou jovens que servem como animadores em suas próprias comunidades. Com o tempo, essas sementes foram nutridas por uma cultura de visitas frequentes, de escuta ativa e de apoio mútuo — não apenas entre crianças e animadores, mas entre famílias inteiras, que passaram a se ver como protagonistas do progresso de seus bairros.

A organização espontânea de grupos de famílias, por exemplo, é um dos frutos mais visíveis desse movimento. Em vez de esperar intervenções externas, famílias começaram a se reunir por ruas ou quadras, identificando quais são as crianças e adolescentes do local, organizando-se para apoiá-los, oferecer espaços de estudo e promover um ambiente de amor, disciplina e respeito. O resultado disso é uma transformação que ocorre tanto nas estruturas, como nas relações: diminuição de fofocas, resolução pacífica de conflitos, mudança nos modos de se expressar, fortalecimento dos vínculos familiares e da confiança mútua entre vizinhos.

Em um destes territórios, mães relatam que “todos cuidam de todas as crianças”; em outras localidades, pais que antes se mantinham distantes passaram a se envolver mais diretamente na educação — não apenas escolar, mas também espiritual — de seus filhos. Há relatos comoventes de mudanças na dinâmica familiar, inclusive em situações marcadas por violência: casais que iniciaram um processo de diálogo franco e amoroso em casa, rompendo ciclos de opressão; mulheres que passaram a apoiar umas às outras; homens que, ao se envolverem nas atividades, mudaram suas atitudes e passaram a buscar apoio para transformar seus lares.

Tais mudanças tornaram-se visíveis até mesmo nas escolas da região. Diretores de instituições públicas começaram a perceber transformações no comportamento dos estudantes e buscaram entender o que estava acontecendo. Ao conversarem com os pais, ouviram relatos sobre as atividades educacionais bahá’ís — o que abriu novos canais de colaboração entre comunidade e escola.

Essa atuação também ampliou os vínculos com lideranças comunitárias. No centro de intensa atividade conhecido como Vila Feliz, por exemplo, uma integrante da comissão de moradores, tradicionalmente envolvida em projetos sociais locais, aproximou-se das atividades e passou a colaborar com reforço escolar e preparação para vestibulares, fortalecendo a relação entre os esforços comunitários existentes e os princípios que sustentam o trabalho educativo e espiritual oferecido pela comunidade bahá’í.

O que se observa, portanto, é a emergência de um novo padrão de vida comunitária — um em que as famílias se veem como responsáveis pelo bem-estar coletivo, onde o cuidado com as crianças e jovens é compartilhado, e onde a Palavra Sagrada encontra expressão concreta no cotidiano das pessoas. Trata-se de uma abordagem que não separa espiritualidade e transformação social, mas as compreende como dimensões interdependentes de um mesmo processo.

À medida que mais pessoas se envolvem — seja por meio da educação moral, da consulta familiar, de grupos de serviço ou de atos cotidianos de cuidado —, a comunidade vai ganhando força para sustentar essa dinâmica. A própria maneira como os bahá’ís são percebidos nesses contextos tem mudado: em vez de serem vistos apenas como membros de uma religião, são reconhecidos por sua contribuição concreta ao bem comum, sendo convidados a participar de fóruns e espaços sociais ligados à proteção da mulher, à infância, à educação e ao desenvolvimento local.

Essa presença ampliada não é resultado de proselitismo, mas da confiança gerada por um trabalho persistente, coerente e centrado na valorização da dignidade humana. O objetivo da ação social, nesse contexto, é  contribuir para que os princípios espirituais que sustentam uma nova civilização — como justiça, cooperação, humildade e serviço — se tornem parte da consciência coletiva.

A experiência nessas comunidades do Rio Grande do Sul demonstra que, quando princípios espirituais influenciam como uma população responde aos desafios sociais que vivencia, e quando essa população desenvolve as capacidades requeridas para intervir na realidade, o impacto deixa de ser pontual para se tornar estrutural — visível não apenas nas famílias e nas crianças, mas em bairros inteiros, escolas, associações e, em última instância, na forma como uma cidade aprende a cuidar de si mesma.

Cultivando novos modos de organização comunitária

Outro tema abordado durante a reunião foi o esforço contínuo da comunidade bahá’í de estabelecer relações de colaboração com um número crescente de organizações da sociedade civil que também buscam responder aos desafios enfrentados pelas populações. Parte-se do entendimento de que a transformação social necessária é profunda e abrangente — e que não será realizada por um único grupo. Os bahá’ís acreditam que todos os segmentos da sociedade têm uma contribuição legítima a oferecer para o melhoramento do mundo e que o diálogo respeitoso entre eles será um dos principais instrumentos na construção de uma nova civilização.

Inspiradas por essa convicção, as comunidades dos agrupamentos mais avançados têm buscado fomentar, em seus territórios, uma cultura de cooperação entre organizações que favoreça o compartilhamento de aprendizagens, o apoio institucional mútuo, a partilha de recursos e a construção de estratégias conjuntas. O percurso é marcado pela busca de uma visão comum de futuro e pelo aprendizado de como atuar sob um mesmo marco de ação, mesmo quando cada grupo tem seus próprios métodos e objetivos específicos.

Nesse processo, as comunidades bahá’ís têm procurado desenvolver uma linguagem que favoreça a interação com instituições públicas e privadas, sem abrir mão dos princípios que orientam sua atuação: rejeição à lógica fragmentada de projetos pontuais, ênfase no protagonismo local, valorização da escuta e do aprendizado coletivo. Como destacou uma participante da reunião, “não é um grupo que decide pelos outros, que diz o que a maioria necessita. Essa organização se sustenta pela fala das pessoas, pela percepção das pessoas”.

As experiências compartilhadas revelam que, quando formas de colaboração entre comunidades e organizações são cultivadas com constância e sob princípios comuns, tornam-se possíveis avanços que antes pareciam distantes. A reunião de julho reafirmou, assim, um princípio central desse esforço: a transformação duradoura da sociedade depende da confiança na capacidade de cada comunidade — em diálogo com outras — construir seus próprios caminhos rumo ao progresso espiritual, social e material.

Ao mesmo tempo, ficou claro que esse processo está longe de concluído. As consultas também evidenciaram questões de aprendizagem que exigirão atenção nos próximos meses: como ampliar ainda mais o número de pessoas envolvidas nos processos educativos? Como assegurar a continuidade e a elevação da capacidade dos que servem? De que modo as comunidades podem manter sua identidade espiritual enquanto respondem aos desafios sociais concretos que enfrentam? Como fomentar uma cultura de colaboração que seja duradoura, enraizada na confiança mútua e aberta ao aprendizado coletivo?

Tais perguntas não diminuem o significado dos avanços alcançados, mas apontam para a natureza dinâmica do caminho que se percorre. Com humildade e determinação, os participantes saem da reunião conscientes de que o progresso alcançado é fruto de esforços contínuos — e que novos passos dependerão da disposição constante para aprender, escutar e servir.

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