Audiência nacional examina esforços para combater a violência na sociedade.

BRASÍLIA, Brasil — Quando a ausência de guerra pode, por vezes, ser confundida com a presença de paz, uma reunião de autoridades governamentais, acadêmicos e líderes da sociedade civil na Câmara dos Deputados do Brasil abordou uma questão que se tornou ainda mais urgente ao longo de quatro décadas: o que é realmente necessário para construir uma paz duradoura?

A reunião comemorativa foi convocada recentemente pela Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial, a pedido do Deputado Federal Luiz Couto, para marcar o 40º aniversário de “A Promessa da Paz Mundial” uma declaração dirigida aos povos do mundo pela Casa Universal de Justiça. O documento, divulgado em 1985 em meio às tensões da Guerra Fria, ofereceu uma visão de paz fundamentada no reconhecimento essencial da unicidade da humanidade.

Edição de A Promessa da Paz Mundial em português, que marca o 40º aniversário da declaração.

O fórum reuniu representantes de órgãos governamentais, instituições acadêmicas e organizações da sociedade civil, além de cerca de 150 participantes, incluindo um número considerável de jovens.

O fórum surgiu de uma iniciativa da Secretaria Nacional de Ações com a Sociedade e o Governo, da Comunidade Bahá’í do Brasil, que explora o tema da “desconstrução de uma cultura de violência”. Os envolvidos na iniciativa constataram que as conversações que se desenvolvem em muitos espaços sociais se tornam mais francas quando começam com as realidades concretas da violência, em vez de apelos abstratos à “paz”.

 

Além da ausência de guerra

Em suas observações iniciais, o deputado Couto contextualizou A Promessa da Paz Mundial no contexto do cenário brasileiro, observando que a mensagem foi emitida em um momento de tensão global e durante a própria transição do Brasil para a democracia. No entanto, ele afirmou que o argumento central do documento permanece atual: a paz não pode se basear apenas em acordos ou tratados políticos; ela exige uma profunda transformação nas relações que moldam a sociedade.

O fórum reuniu representantes de órgãos governamentais, instituições acadêmicas e organizações da sociedade civil, além de cerca de 150 participantes, incluindo um número considerável de jovens.O deputado Couto estabeleceu o tom das discussões ao chamar a atenção para um paradoxo no cerne da sociedade brasileira.

“O Brasil, embora não esteja em guerra, enfrenta níveis alarmantes de violência que afetam milhões de vidas todos os anos, intensificados pela desigualdade, pelo racismo estrutural, pela discriminação de gênero e pela marginalização dos povos indígenas e daqueles que vivem em comunidades urbanas periféricas”, afirmou. “Somos, infelizmente, uma nação que vive não na presença da guerra, mas na ausência da paz.”

 

Revisitando pressupostos sobre a natureza humana

O deputado Couto enfatizou que A Promessa da Paz Mundial oferece motivos para esperança. “É vital lembrar que a natureza humana não está condenada à violência”, disse ele. “Pelo contrário, a mensagem oferece uma visão sublime, sugerindo que cada pessoa carrega dentro de si uma nobreza inerente e a capacidade de solidariedade.”

Essa perspectiva, de que os seres humanos não são inerentemente violentos, mas sim capazes de altruísmo e cooperação, permeou todo o fórum.

Painelistas da esquerda para a direita: Marcele de Oliveira, Instituto Sou da Paz; Marcos Alan Ferreira, membro da comunidade bahá’í; Luiz Couto, deputado; Daniele Barreto, Projeto Axé.

Ao apontar para as formas de violência visíveis no Brasil contemporâneo, Marcos Alan Ferreira, membro da Secretaria Nacional de Ações com a Sociedade e o Governo, da Comunidade Bahá’í do Brasil, afirmou que um dos obstáculos mais persistentes à paz é a suposição de que a violência é simplesmente parte da natureza humana.

O Sr. Ferreira e outros palestrantes exploraram como essa percepção pode influenciar as abordagens para a construção da paz como um empreendimento prático enraizado nas comunidades, observando que superar a violência requer mais do que apenas abordar seus sintomas.

“Para nutrir o espírito de cuidado com o próximo, devemos desmantelar a cultura da violência que normaliza o preconceito, a exclusão e a desigualdade, e construir em seu lugar uma cultura de paz”, disse ele. “Essa cultura pode florescer quando a justiça, a igualdade e o cuidado são cultivados no lar.”

 

Os jovens como protagonistas

Um tema recorrente ao longo do encontro foi o papel central dos jovens na promoção de comunidades pacíficas. A presença marcante de jovens na plateia, destacada por vários palestrantes, conferiu às discussões um senso de urgência e, ao mesmo tempo, de esperança.

Roberta Maschietto, do Centro de Estudos de Conflitos e Paz da Universidade de São Paulo, descreveu como a polarização no Brasil pode assumir um caráter social mais profundo, abordando questões de identidade, reconhecimento e quem é percebido como plenamente detentor de direitos.

A Dra. Maschietto enfatizou que as diferenças não precisam ser vistas como uma ameaça. “As pessoas jovens estão mais abertos à mudança. Elas estão abertas a novas ideias… É por isso que escutar e envolver os jovens é tão importante.”

Os participantes relacionaram essa percepção à experiência das comunidades bahá’ís em todo o Brasil. “Em lugares como Canoas, no Rio Grande do Sul; em São Sebastião e Santa Luzia, ambas aqui no Distrito Federal; e em diversas localidades de São Paulo”, disse o Sr. Ferreira, “temos visto jovens se reunirem em grupos dedicados ao serviço comunitário, liderando processos de mudança, organizando espaços para o diálogo e assumindo a responsabilidade de transitar de uma cultura de violência para uma cultura de paz.”

Uma foto de grupo dos jovens que compareceram à audiência.

Uma única família humana

Ao longo da audiência, os oradores retomaram o princípio que se encontra no cerne de A Promessa da Paz Mundial: o reconhecimento da unicidade essencial da humanidade.

“Ao reconhecermos que a humanidade é uma só, começamos a rejeitar a lógica do ‘nós contra eles’, as barreiras das fronteiras e os nacionalismos exagerados que alimentam a exclusão”, disse o Sr. Ferreira. “Pelo contrário, fomentamos uma visão de cidadania global e de pertencimento compartilhado, que transcende nossas diferenças.”

Paulo Ricardo Sampaio, do ISER (Instituto de Estudos da Religião), encerrou o fórum com uma passagem dos escritos de Bahá’u’lláh, dirigida aos governantes da Terra: “Escutai o conselho que vos foi dado pela Pena do Altíssimo, para que tanto vós como os pobres possam atingir tranquilidade e paz.”

O Sr. Sampaio afirmou: “Como nos lembra a declaração A Promessa da Paz Mundial, a paz não é algo que encontramos; é algo que construímos, tijolo por tijolo, às vezes de forma dolorosa. A paz não é um destino final ou uma linha de chegada que cruzamos, mas uma escolha que devemos fazer repetidamente.”

O fórum é parte de um esforço contínuado da Comunidade Bahá’í do Brasil em contribuir com os debates sociais sobre a superação da violência e a construção da paz.

O fórum surgiu de uma iniciativa do Escritório de Assuntos Externos da Fé Bahá’í no Brasil, que explorou o tema da “desconstrução de uma cultura de violência”.

Para ler a história online ou ver mais fotos, acesse: news.bahai.org.

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