Evento reuniu organizações civis, representantes do governo e da comunidade bahá’í para refletir sobre os caminhos da paz no Brasil contemporâneo
BRASÍLIA — Em meio aos desafios de um mundo marcado por desigualdades e tensões crescentes, um seminário realizado na Câmara dos Deputados, no dia 14 de outubro, reuniu vozes de diferentes regiões e setores do Brasil para refletir sobre o significado atual da declaração “A Promessa da Paz Mundial aos Povos do Mundo”, publicada pela Casa Universal de Justiça há quatro décadas.
O encontro foi promovido pela Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial, em colaboração com o Escritório de Relações Institucionais da Comunidade Bahá’í do Brasil. Reunindo cerca de 150 participantes, entre parlamentares, organizações da sociedade civil, representantes do governo e jovens de diversas comunidades, o evento buscou explorar como a construção da paz se manifesta nas realidades locais e quais caminhos podem ser trilhados para superação das múltiplas formas de violência que atravessam o país.
“A paz não é uma utopia, mas uma necessidade urgente”, afirmou Marcos Alan Ferreira, representante da Comunidade Bahá’í, na abertura do seminário. “Ela requer uma transformação profunda das relações humanas e sociais — um processo que começa no reconhecimento da unicidade da humanidade e na promoção da justiça como base da convivência.”
Um processo de diálogo e construção conjunta
O seminário foi fruto de um processo de meses de conversações e consultas que se desdobrou do projeto “Edificando uma Perspectiva para uma Sociedade Mais Justa”, desenvolvido pela SASG em colaboração com parceiros em todo o país. Dentro desse esforço, o tema da “desconstrução de uma cultura de violência” emergiu como ponto de partida para um diálogo mais amplo sobre a criação de uma cultura de paz — não apenas como ideal, mas como prática social e política.
A ideia de realizar o seminário surgiu de uma série de diálogos mantidos pelo escritório com assessorias parlamentares, especialmente a do deputado Luiz Couto, reconhecido por sua trajetória em defesa dos direitos humanos e pelo histórico de cooperação com a comunidade bahá’í.
O evento contou com a presença de organizações com trajetórias significativas em seus contextos locais: o Instituto Sou da Paz (SP), o Projeto Axé (BA), o Instituto Mãe Crioula (PA), o ISER – Instituto de Estudos da Religião (RJ), e a Uniperiferias – Universidade Internacional das Periferias (RJ). Também participaram a pesquisadora Roberta Maschietto, da Universidade de São Paulo, e representação do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC).
Diversas vozes, um mesmo anseio
As falas dos convidados revelaram uma multiplicidade de perspectivas e experiências — das periferias urbanas à Amazônia — unidas pelo mesmo anseio de transformar estruturas de violência em relações pautadas pela dignidade humana.
O representante da Uniperiferias, Cléber Ribeiro, destacou que “a paz é essencial para que a vida floresça”, lembrando que muitas comunidades nas periferias brasileiras ainda buscam condições básicas para vivê-la plenamente. Já a pesquisadora Roberta Maschietto refletiu sobre as dimensões simbólicas e estruturais da violência, ressaltando a necessidade de dar voz e protagonismo à juventude na construção de soluções duradouras.
Representando o MDHC, Anna Karla Pereira reforçou que o caminho da paz exige o reconhecimento da dignidade e da igualdade racial, enquanto Irene Nascimento, conselheira tutelar da Cidade Estrutural (DF), partilhou como o trabalho conjunto com a comunidade bahá’í local tem ajudado jovens e adultos a desenvolverem novas visões de si mesmos e de seu papel na transformação de sua realidade.
Em um dos momentos mais marcantes, a jovem Hevylym Domingas, também da Estrutural, emocionou o público ao declamar um poema sobre o significado da paz em sua comunidade — um testemunho vivo de esperança e de ação no cotidiano.
Reflexões sobre justiça, cultura e meio ambiente
Nas falas seguintes, Daniele Barreto, do Projeto Axé, destacou o papel da cultura como meio de cura e reconstrução social; o professor Aiala Couto, do Instituto Mãe Crioula, trouxe a perspectiva da Amazônia, lembrando que “não pode haver paz sem o respeito aos povos e à floresta”; e Marcele de Oliveira, do Instituto Sou da Paz, enfatizou a importância de políticas públicas de desarmamento e superação da violência letal.
Encerrando o encontro, Paulo Ricardo Sampaio, do ISER, evocou o histórico de colaboração entre sua instituição e a comunidade bahá’í, reforçando que “não há paz verdadeira sem justiça social”. Ele concluiu sua fala citando Bahá’u’lláh:
“Ó vós governantes da terra! (…) Escutai o conselho que vos foi dado pela Pena do Altíssimo, para que tanto vós como os pobres possam atingir tranquilidade e paz.”
Avançando no aprendizado coletivo
O seminário não foi apenas uma celebração de um marco histórico, mas parte de um processo contínuo de aprendizagem e colaboração. Inspirado pelo espírito do evento, o SASG seguirá dialogando com organizações presentes e ampliando a presença bahá’í em espaços de reflexão sobre paz e justiça.
Entre as próximas ações está a participação no VIII Encontro Brasileiro de Estudos para a Paz, no Rio de Janeiro, onde uma mesa-redonda reunirá alguns dos participantes do seminário para aprofundar o tema “Obstáculos para a construção da paz na sociedade brasileira”.
Para muitos presentes, o seminário ofereceu não apenas um momento de memória, mas uma visão do futuro — um lembrete de que a construção da paz é um processo coletivo, que exige persistência, colaboração e fé na capacidade humana de transformar o mundo.




