Construindo comunidades resilientes à crise climática: aprendizados da comunidade bahá’í do Rio Grande do Sul

As imagens das enchentes que devastaram cidades do Rio Grande do Sul no ano passado se tornaram símbolos de uma crise que vai muito além da destruição material. Famílias perderam casas, comerciantes viram seus meios de vida arruinados, bairros inteiros precisaram ser evacuados às pressas. O número de vítimas fatais chegou a 184, além de 806 feridos e 25 pessoas até hoje dadas como desaparecidas.

Em meio a esse cenário e à discussão sobre a melhoria das condições de infraestrutura e políticas públicas, uma pergunta se impõe: o que permite a certas comunidades atravessar a tormenta com mais resiliência, criatividade e até serenidade?

A experiência da comunidade bahá’í em várias localidades gaúchas sugere que a resposta não está apenas em planos técnicos de emergência. Também é necessário fortalecer capacidades humanas e comunitárias, cultivadas ao longo do tempo por meio de práticas participativas, educativas e espirituais.

A força das capacidades comunitárias

Durante as enchentes, muitos se surpreenderam com a rapidez e a criatividade das respostas locais. Jovens organizaram pontos de coleta e distribuição de doações, mapeando as necessidades de cada bairro. Em outra região, vizinhos improvisaram cozinhas comunitárias para centenas de famílias desalojadas. Pequenos grupos de estudo e oração se transformaram em espaços de acolhimento emocional, renovando a esperança em meio ao luto.

À primeira vista, essas respostas parecem espontâneas. Mas, ao olhar de perto, revelam-se como frutos de um processo mais longo. Ao longo dos anos, a comunidade bahá’í tem aprendido com a população local a como criar espaços em que vizinhos possam se reunir, refletir sobre seus desafios e empreender ações conjuntas. Desse processo, emergiram grupos de famílias comprometidas com a prosperidade de todas as pessoas. Diante do momento da crise, a prática cotidiana de partilhar responsabilidades de maneira coordenada foi acionada, sem que uma voz se impusesse sobre as demais.

Além disso, o profundo conhecimento que esses grupos de famílias desenvolveram sobre a sua realidade local, permitiu enxergar rapidamente prioridades e organizar recursos de maneira eficaz. Essa capacidade de análise conjunta, aliada à clareza sobre o poder criativo da unidade e sobre o potencial de todas as pessoas para o altruísmo, permitiu que comunidades respondessem não apenas com eficiência, mas também com serenidade.

Assim, o que emergiu não foi improviso ou heroísmo pontual, mas a expressão de uma aprendizagem contínua: como transformar visões éticas e espirituais em recursos concretos para atravessar tempos de incerteza.

Mais do que soluções técnicas

Infraestrutura, políticas públicas e investimentos são indispensáveis para enfrentar emergências climáticas. Mas a experiência gaúcha mostra que mesmo as melhores estruturas se revelam frágeis se não forem sustentadas por um alicerce ético e espiritual. A pandemia já havia ensinado isso: onde havia redes de apoio, diálogo e confiança, as pessoas resistiram melhor à solidão e à escassez; onde tais vínculos eram frágeis, prevaleceram o medo e a desinformação. O mesmo padrão reapareceu nas enchentes.

O que se consolida é a percepção de que não basta reagir com medidas técnicas. Comunidades resilientes precisam mobilizar aquilo que toca as pessoas em sua profundidade: o reconhecimento da sua humanidade compartilhada, a força de valores como solidariedade e perseverança e a disposição de cuidar umas das outras. É nesse terreno que são criadas capacidades coletivas – elementos intangíveis, mas de impacto concreto.

Em outras palavras, de pouco adianta construir muros mais altos se os laços de confiança permanecem frágeis. A segurança não se mede apenas em termos de infraestrutura, mas também pela qualidade das relações humanas e pelo sentido de propósito que sustenta a ação social.

Convergência na diversidade

Na prática, essas comunidades precisaram aprender a reunir pessoas de diferentes origens e visões de mundo em ações comuns. A experiência mostra que isso não implica em apagar as diferenças. Mas transformá-las em força coletiva.

Foi o que observou Luana Goldman, que atua em comunidades da região metropolitana de Porto Alegre. Para ela, o que possibilitou a rápida organização de abrigos não foi apenas boa vontade individual, mas um hábito cultivado de reunir diferentes pessoas em torno de processos de diálogo: “Quando chegou a hora de decidir como organizar as respostas à crise, já existia uma confiança construída. Ninguém precisou disputar espaço de fala. Cada um sabia que a sua contribuição seria ouvida. Essa escuta, que parece tão simples, foi decisiva para que as coisas funcionassem.”

Dessa forma, práticas contínuas de consulta e cooperação produzem um tecido social mais firme. E, diante da crise, as comunidades puderam agir com clareza de propósito, revelando que a resiliência não nasce apenas de estruturas materiais, mas da força de laços humanos orientados por valores compartilhados.

Uma reflexão necessária

A experiência em localidades do Rio Grande do Sul mostra que ética e espiritualidade não são dimensões abstratas, mas condições práticas para respostas eficazes às crises. Reconhecer as capacidades inerentes em todas as pessoas, valorizar o conhecimento das comunidades e criar espaços de participação real amplia a capacidade de resposta e fortalece o protagonismo social.

Esse aprendizado ecoa iniciativas nacionais que buscam ampliar a participação social e incorporar princípios éticos às políticas climáticas. Mas vai além: evidencia que a resiliência não deve ser confundida com ajustes em situações de sofrimento. Ao contrário, trata-se de criar condições para que populações historicamente vulnerabilizadas atravessem crises com mais cooperação e esperança – e construam um futuro mais próspero e seguro para todas as pessoas.

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