Da exclusão sistêmica à construção coletiva: reflexões sobre transformação e dignidade

Hildete Souza
Professora de Língua Portuguesa. Especialista em adolescências e juventudes. Coordenadora de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Contrabando de Migrantes, Combate ao Trabalho Escravo e Política de Migrações, Refúgio e Apatridia - Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Estado da Bahia.

A sociedade contemporânea carrega marcas profundas de um modelo excludente, cujas raízes históricas e estruturais se perpetuam ao longo dos séculos. Qualquer tentativa de transformação real precisa ir além de meras reformas; exige mudanças profundas, que ataquem diretamente as bases desse sistema. A exclusão não é um efeito colateral, mas uma engrenagem essencial da estrutura social vigente, moldada por imposições culturais e práticas violentas que se entrelaçam à história de povos negros e indígenas.

A colonização impôs modos de vida e valores que desconsideraram e violentaram cosmologias outras, apagando saberes, formas de organização comunitária e modos de existência que não cabiam dentro da lógica hegemônica de exploração e acumulação. O sistema econômico dominante, sustentado pela disputa e pela exploração, opera em contraposição a perspectivas que valorizam a reciprocidade e a construção da paz. Em contraste com essa lógica, outras formas de sociabilidade, que privilegiam a partilha e o cuidado, demonstram que há caminhos possíveis para além do modelo excludente.

A segregação, no entanto, não se manifesta apenas nas desigualdades sociais e raciais, mas também na desconexão com a natureza. A cisão entre humanidade e ambiente reforça um paradigma de dominação que negligencia a interdependência dos seres. Corpos e territórios são indissociáveis, e a negação dessa conexão sustenta estruturas de exploração que se reproduzem em múltiplas dimensões: da degradação ambiental ao racismo estrutural.

Esse racismo, por sua vez, não pode ser compreendido sem o peso de séculos de escravização e de uma abolição tardia e inconclusa. O 13 de maio de 1888 não se traduziu em reparação nem em equidade; a liberdade formal nunca se converteu em direitos plenos. Ainda hoje, trabalhadores e trabalhadoras são resgatados de condições análogas à escravidão, evidenciando que a exploração persiste, agora sob outras roupagens. A insuficiência de políticas públicas e a precariedade dos mecanismos de fiscalização fazem com que muitas dessas violações sequer sejam identificadas, perpetuando um ciclo de invisibilidade e desumanização.

A dignidade humana está diretamente ligada ao reconhecimento da existência plena de cada pessoa. A marginalização sistemática de determinados grupos implica a negação desse reconhecimento, impedindo que seus direitos sejam efetivados. No entanto, a resistência persiste e se manifesta em diversas frentes: nas ações afirmativas, nos programas de acesso à educação e no fortalecimento de redes de apoio e solidariedade. Embora importantes, essas medidas ainda não conseguem alterar as bases estruturais das desigualdades. São passos necessários, mas insuficientes diante da profundidade das questões que enfrentamos.

A mudança exige, antes de tudo, uma revisão crítica das estruturas que sustentam as desigualdades. Isso demanda reflexão, diálogo e encontros que favoreçam a construção coletiva de outros modos de existência. No mundo acelerado em que vivemos, onde tudo é urgente e efêmero, é essencial criar espaços para a escuta atenta e para o pensamento profundo. Ambientes como a família, a escola, o trabalho, a universidade e a comunidade podem ser catalisadores dessa transformação, desde que possibilitem a participação ativa de todas as pessoas.

Para isso, é fundamental resgatar imagens e práticas que valorizem a coletividade, como a ciranda, a gira, o círculo. Nesses espaços, não há hierarquia de importância, não há primeiro nem último, não há maior nem menor. A horizontalidade das relações fortalece o senso de pertencimento e possibilita a construção de vínculos genuínos. Escutar o outro, dedicar tempo à atenção e ao diálogo são gestos revolucionários em um tempo que nos empurra para a superficialidade.

A transformação que buscamos não será um ato isolado, mas um processo contínuo de construção e reconstrução. A mudança não virá apenas de políticas públicas ou de iniciativas governamentais, mas da mobilização coletiva, da capacidade de olhar para o outro com dignidade, de reconhecer e valorizar a diversidade como potência. Somente assim poderemos construir uma sociedade que não apenas proclame a igualdade, mas a concretize em cada esfera da vida.

 

Nota: O artigo expressa a visão individual da autora e faz parte de uma série de vozes que vêm contribuindo com o projeto.

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