Da “Vila” ao Parlamento: Jovens e Crianças Contribuem para os Debates da COP30

Brasília / São Sebastião (DF) —  Debates globais sobre mudanças climáticas costumam parecer distantes da vida cotidiana de muitas comunidades. No bairro Vila do Boa, em São Sebastião (DF), no entanto, o território tem se afirmado como espaço de aprendizado, cuidado e ação coletiva. Um processo educativo envolvendo cerca de 100 crianças, pré-jovens e jovens, desenvolvido ao longo do tempo no contexto local, chegou recentemente à Câmara dos Deputados por meio de uma Audiência Pública, contribuindo para os debates nacionais que antecederam a COP30.

 

Um percurso construído ao longo do tempo

As MiniCOPs, idealizadas pelo Instituto Alana, são espaços de escuta, aprendizado e participação que buscam ampliar o protagonismo de crianças e adolescentes em momentos de grande atenção às pautas climáticas, como as Conferências das Partes (COPs). Mais do que criar oportunidades de participação, elas convidam adultos e instituições a aprender com as novas gerações e a reconhecer suas capacidades de reflexão e compromisso com o bem comum.

Na Vila do Boa, o planejamento da MiniCOP foi conduzido pelos jovens do projeto Vidas Jovens Coerentes, uma iniciativa da comunidade bahá’í voltada à formação de capacidades para o serviço à sociedade e ao aprimoramento moral e espiritual de seus participantes. A Escola Classe Vila do Boa e parceiros locais colaboraram, oferecendo apoio e criando condições para que as atividades pudessem se desenvolver. Também foram incluídos no processo professores, pais e lideranças da localidade, para aprofundar o diálogo comunitário e favorecer a participação significativa de crianças, adolescentes e jovens.

Esse percurso vem sendo construído por meio de ações educativas contínuas, voltadas ao desenvolvimento de capacidades individuais e coletivas para o cuidado com a vida comunitária e com a natureza; nesse sentido, a MiniCOP não marcou um ponto de chegada, mas um momento de aprofundamento de processos já em andamento.

 

Juventude e serviço à comunidade

A atuação dos jovens na Vila do Boa reflete um princípio presente nos programas educativos bahá’ís conhecido como duplo propósito: o equilíbrio entre o desenvolvimento pessoal e a responsabilidade para com a sociedade. Para Kelvin Mendes, coordenador do programa de pré-jovens, esse entendimento orienta a forma como os jovens se engajam no território.

“Temos um lema muito forte de duplo propósito, em que o indivíduo busca se desenvolver, mas não pensando apenas em si, e sim também no desenvolvimento da comunidade”, afirma. Nesse processo, os jovens procuram se desenvolver intelectual, moral e espiritualmente, ao mesmo tempo em que contribuem para a melhoria das condições sociais ao seu redor.

A MiniCOP e a construção de uma visão coletiva

Durante a MiniCOP, uma mudança sutil, porém significativa, orientou o processo educativo: a pergunta inicial passou de “qual é a vila dos seus sonhos?” para “qual é a vila dos nossos sonhos?”. A alteração reforçou a dimensão coletiva da reflexão e convidou crianças e jovens a imaginar um futuro compartilhado para o território.

As atividades integraram reflexão, expressão cultural e ação prática. Crianças e adolescentes produziram cartas, desenhos e pinturas sobre o cuidado com o meio ambiente; participaram do plantio de mudas de ipê, destinadas à nascente do córrego Mato Grande; e vivenciaram oficinas artísticas e momentos de contação de histórias inspiradas na ancestralidade brasileira, com personagens como Iara e Curupira. Um dos destaques foi a apresentação do Cordel do Cerrado, elaborado pelos próprios estudantes, celebrando a biodiversidade do bioma e a responsabilidade coletiva por sua preservação.

As atividades também dialogaram com desafios concretos do território, como a ausência de saneamento adequado e a coleta irregular de lixo, ajudando a situar a crise ambiental no cotidiano das famílias da região.

 

Da experiência local ao diálogo institucional

A presença da deputada federal Érika Kokay na MiniCOP, ao reconhecer a qualidade e a profundidade das contribuições apresentadas por crianças e adolescentes, motivou o encaminhamento da experiência da Vila do Boa à Câmara dos Deputados, resultando na Audiência Pública intitulada “Contribuições de Crianças e Adolescentes para a COP30”, realizada na Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais.

A audiência reuniu representantes do Ministério do Meio Ambiente, do Ministério da Educação, do Ministério dos Direitos Humanos e do Instituto Alana,  além de educadores, jovens e crianças do território.

O protagonismo das crianças e adolescentes foi central. Evely, Júlia e Johana, acompanhadas da jovem Cassandra, apresentaram cartas e desenhos produzidos durante a MiniCOP, compartilhando reflexões e compromissos com o cuidado da natureza e da comunidade. Para Johana, a experiência reforçou que “o futuro é nosso, mas o presente também”, sublinhando a importância da participação das novas gerações nas decisões que afetam suas vidas hoje.

Em diálogo com as crianças, a deputada Érika Kokay recorreu à metáfora da árvore para expressar a dimensão intergeracional do processo: “Raiz é ancestralidade, caule somos nós e a copa é quem ainda vai chegar”, destacando a responsabilidade compartilhada entre gerações.

 

Fundamentos éticos e continuidade do aprendizado

As reflexões apresentadas na Audiência Pública dialogam com o entendimento de que a Terra é um só país e a humanidade, seus cidadãos. Nesse sentido, a sustentabilidade é entendida não apenas como um desafio técnico, mas como um processo ético que exige a superação de desigualdades sociais e do racismo, reconhecendo a dignidade e a capacidade de contribuição de todos os povos e territórios.

Conforme ressaltado por Luiza Spinacé, representante institucional da Comunidade Bahá’í do Brasil, “a unidade da família humana é o alicerce da sustentabilidade”. Essa perspectiva orienta iniciativas que buscam integrar cuidado ambiental, fortalecimento das relações humanas e participação das comunidades locais.

Na Vila do Boa, o processo de aprendizado segue em curso. O cuidado contínuo com as árvores plantadas, novas rodas de conversa com famílias e educadores e a continuidade das ações educativas mantêm viva a reflexão iniciada pela MiniCOP. Mais do que um evento, a experiência aponta para um ciclo contínuo de estudo, consulta, ação e reflexão, no qual o aprendizado local contribui para diálogos mais amplos sobre o futuro comum da humanidade.

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