No dia 10 de março, durante o CSW70 na ONU, a Comunidade Internacional Bahá’í (BIC) sediou um evento paralelo que convidou à reflexão a partir da declaração “Reconceitualizando a Justiça: Lançando as Bases para um Mundo com Igualdade de Gênero”.
Na ocasião, a representante da Comunidade Bahá’í do Brasil, Dorothy Yazdani, compartilhou aprendizados a partir de uma experiência que a comunidade tem desenvolvido em alguns bairros de cidades da região sul do país.
Gostaria de começar saudando o painel e expressando minha gratidão à Comunidade Internacional Bahá’í pela oportunidade de participar desta reflexão.
A declaração que inspira esta sessão é altamente significativa, pois aponta para novas formas de conceber a justiça. Entre as ideias que propõe está a de que a justiça também pode ser compreendida como “a liberdade de uma comunidade de conceber e seguir seu próprio caminho de desenvolvimento”. Gostaria de compartilhar brevemente uma experiência com a qual a comunidade bahá’í brasileira tem estado envolvida em alguns bairros de cidades da região sul do país, e que, acredito, ajuda a iluminar essa ideia.
Quando esse trabalho teve início, esses bairros, como muitos outros, eram marcados por inúmeros desafios sociais: meios de subsistência instáveis, problemas relacionados à saúde mental e física, violência e um profundo sentimento de isolamento social. Ainda assim, as conversas entre os moradores desses bairros revelavam que, por trás dessas dificuldades, também era possível encontrar um desejo de mudança — um anseio por justiça que nasce do coração humano, mas que ainda não havia encontrado um canal para se expressar.
A barreira que parecia mais significativa não era a privação material, mas a ideia de que a mudança precisava ser buscada individualmente. Muitas famílias viviam próximas umas das outras, mas sem laços de confiança ou cooperação. As interações entre vizinhos eram raras e, quando ocorriam, frequentemente eram marcadas por desconfiança ou conflito. Essa dinâmica também se refletia entre as crianças: as brincadeiras facilmente se transformavam em disputas, e as crianças mais fortes frequentemente dominavam as mais novas.
Foi a partir desses bairros que um pequeno (mas crescente) grupo deu início a um processo educativo de base comunitária, voltado a fortalecer a capacidade das pessoas de refletirem profundamente sobre sua realidade e de agir coletivamente para transformá-la. Esse caminho começa de forma simples, com uma pessoa — geralmente uma mulher — que visita regularmente seus vizinhos para compartilhar ideias inspiradoras sobre princípios morais, como veracidade, generosidade e justiça, e para refletirem juntos sobre os caminhos que podem trilhar coletivamente.
O que começamos a ver emergir desse processo foram grupos de pessoas locais que decidiram se engajar nesse esforço. Uma família, um grupo de mães ou moradores de uma mesma rua passaram a se reunir regularmente para estudar materiais que abordam princípios como a crença na dignidade humana, a cooperação e o bem-estar coletivo, e para refletir sobre como enfrentar os desafios ao seu redor por meio de uma abordagem fundamentada nesses princípios.
Uma característica importante desse processo é que aprendizagem e ação caminham lado a lado. À medida que as pessoas aprendem algo, logo procuram colocá-lo em prática e compartilhá-lo com outros em suas interações cotidianas. Isso permite que sentimentos de desvalorização, como “não sirvo para nada”, deem lugar gradualmente a um senso de protagonismo e propósito. Até mesmo crianças e adolescentes passam a ser vistos como participantes ativos e capazes nesse processo.
Com o tempo, nos bairros onde esses esforços avançam, mudanças concretas começam a surgir com regularidade. À medida que a confiança cresce, novos laços se formam entre os vizinhos e redes de apoio mútuo começam a se desenvolver.
Especialmente entre as mulheres, criam-se espaços informais onde o medo e a sensação de impotência podem ser deixados de lado, permitindo que elas reflitam juntas sobre questões que afetam profundamente suas vidas, incluindo o bem-estar de seus filhos, situações de violência e seu próprio senso de valor. Em um ambiente de segurança e cuidado mútuo, muitas encontram o apoio necessário para reconsiderar suas circunstâncias e buscar caminhos mais dignos para suas vidas.
Gradualmente, essas mulheres passam a assumir diferentes papéis na vida comunitária, incluindo funções de apoio, organização e liderança. Algumas lideram iniciativas educativas para crianças e jovens; outras organizam esforços coletivos relacionados à saúde e ao bem-estar das famílias; outras ainda começam a explorar pequenas atividades econômicas que fortalecem sua autonomia e ampliam as oportunidades para suas famílias. Um processo que começou com apenas alguns indivíduos passa, pouco a pouco, a abranger toda a comunidade e a reconstruir seu tecido social.
O que vemos emergir, passo a passo, é um processo de desenvolvimento que não é imposto de fora, mas concebido e conduzido pelas próprias pessoas. À medida que mais moradores acessam esse anseio por justiça e se engajam de forma construtiva com os outros, um novo senso de pertencimento e de responsabilidade compartilhada pelo bem-estar coletivo vai se formando gradualmente. Cada iniciativa nasce de um compromisso de não deixar ninguém para trás.
Acredito que essa experiência — ainda em seus estágios iniciais e repleta de desafios — nos ajuda a compreender que a justiça, nesse sentido, não se limita a garantir acesso a mecanismos formais de reparação, por mais importantes que sejam. Ela também envolve o fortalecimento da capacidade de indivíduos e comunidades participarem ativamente da construção de seu próprio futuro. Trata-se de um caminho impulsionado pela abundância de aspirações e capacidades que podem ser encontradas e cultivadas em cada comunidade.