Podcast sobre a Vida de Bahá’u’lláh

No dia 28 de maio, os bahá’ís ao redor do mundo recordaram, com reverência e reflexão, a Ascensão de Bahá’u’lláh — momento sagrado que marca a passagem de Sua alma deste mundo para o reino eterno. Neste ano, a comunidade brasileira recebeu uma mensagem especial em formato de áudio, preparada com carinho e profundidade espiritual, que agora está disponível também em texto neste espaço.

A seguir, você pode ouvir a gravação completa e acompanhar, linha por linha, as palavras compartilhadas na ocasião. Este conteúdo visa oferecer não apenas uma lembrança, mas também inspiração e clareza sobre o papel transformador da Revelação de Bahá’u’lláh no progresso espiritual e social da humanidade.

O nascimento de uma Nova revelação

A missão de Bahá’u’lláh teve início na masmorra de Siyáh-Chál, em Teerã, no Irã, em agosto de 1852, onde foi aprisionado por defender a causa do profeta mártir que o precedera e que viera anunciar a sua vinda, conhecido como O Báb. Sobre essa prisão, ele escreveria mais tarde:

“Fomos mantidos por quatro meses em um lugar imundo, além de qualquer comparação. O calabouço estava envolto em densas trevas e nossos companheiros de prisão contavam cerca de 150 almas — ladrões, assassinos e salteadores. Pena alguma pode descrever aquele local, língua alguma descrever seu cheiro terrível. Aqueles homens, em sua maioria, não tinham roupas nem lençóis sobre os quais deitar-se. Somente Deus sabe o que nos aconteceu naquele lugar sumamente fétido e lúgubre.”

Foi nessas circunstâncias, e defrontando-se com a perspectiva de sua própria morte iminente, que Bahá’u’lláh recebeu o primeiro sinal de sua missão. Certa noite, em um sonho, estas excelsas palavras fizeram-se ouvir:

“Em verdade, Nós te faremos vitorioso por ti mesmo e por tua pena. Em breve, Deus erguerá os tesouros da terra, homens que te ajudarão por ti mesmo e por teu nome, meio pelo qual Deus revivificou o coração daqueles que O reconheceram.”

“Durante os dias em que permaneci na prisão de Teerã, embora o torturante peso das correntes e o ar nauseabundo mal me permitissem dormir, nos raros momentos de sono, sentia como se algo fluísse desde a coroa de minha cabeça até o peito, semelhante a uma poderosa torrente a precipitar-se sobre a terra do topo de uma alta montanha. Cada membro de meu corpo, como resultado, incendiava-se. Em tais momentos, minha língua recitava aquilo que homem algum suportaria ouvir.”

Prisões e exílios

Muitos dos companheiros de fé de Bahá’u’lláh foram executados pelas autoridades nesses quatro meses de aprisionamento em Teerã. Por fim, ainda sem julgamento ou direito a qualquer recurso, Bahá’u’lláh foi libertado e imediatamente banido de sua terra natal. Suas riquezas e propriedades foram arbitrariamente confiscadas.

Bahá’u’lláh nascera de família nobre, com ancestrais que remontam às grandes dinastias do passado imperial da Pérsia. Seu pai fora ministro de Estado. Seu primeiro exílio foi para a cidade de Bagdá, no Iraque, onde chegou com familiares e alguns amigos em março de 1853, tendo aí vivido até 1863. Duas de suas obras místicas mais importantes são dessa época: As Palavras Ocultas e O Livro da Certeza, ambas publicadas em português pela editora Bahá’í do Brasil.

Em abril de 1863, às vésperas de um novo exílio pelas autoridades otomanas, sob cujo governo estava confinado, Bahá’u’lláh reuniu algumas pessoas dentre seus companheiros, às quais confidenciou o fato central de sua missão, anunciando-lhes ser ele Aquele cuja vinda, não apenas O Báb, mas todos os profetas do passado haviam prometido.

“O propósito subjacente a toda a criação é a revelação deste mais sublime, deste mais sagrado dia, o dia conhecido como O Dia de Deus em seus livros e escrituras. O dia que todos os profetas e os eleitos e os seres santos almejaram presenciar. Este é o dia em que a humanidade pode contemplar a face do Prometido e lhe ouvir a voz. O chamado de Deus ergueu-se e a luz de Seu semblante resplandeceu sobre os homens. É dever de cada um apagar da tábua de seu coração o traço de toda a palavra vã e, com a mente aberta e imparcial, fixar os olhos nos sinais de Sua revelação, nas provas de Sua missão e nas evidências de Sua glória.”

Nesse período, Bahá’u’lláh esteve exilado na Turquia, inicialmente na capital, Constantinopla (hoje Istambul), sendo transferido no início de dezembro de 1863 para a cidade de Adrianópolis, situada no lado europeu do país, onde viveu até 1868.

O primeiro Manifestante de Deus a pisar no ocidente

Do ponto de vista da história religiosa, os sucessivos banimentos de Bahá’u’lláh para Constantinopla e Adrianópolis têm um simbolismo destacado. Pela primeira vez, um Manifestante de Deus, fundador de um sistema religioso independente, que em pouco tempo iria se espalhar por todo o planeta, cruzara o estreito canal de água que separa a Ásia da Europa e havia se estabelecido no Ocidente. Todas as outras grandes religiões surgiram na Ásia e os ministérios de seus fundadores ficaram confinados àquele continente. Referindo-se ao fato de que as dispensações do passado e particularmente as de Abraão, Cristo e Mohamad, produziram seus efeitos mais importantes para o desenvolvimento da civilização durante o curso da sua expansão para o ocidente, Bahá’u’lláh predisse que a mesma coisa iria ocorrer nesta nova era, porém em escala muito maior.

“No Oriente, a luz de Sua revelação surgiu. No Ocidente, os sinais de Seu domínio apareceram. Ponderai isso em vossos corações, ó povos”.

Não é de surpreender, então, ter Bahá’u’lláh escolhido aquela oportunidade para tornar pública Sua missão, cujo anúncio foi feito em uma série de declarações que se situam entre os mais destacados documentos da história religiosa.

Neles, o Manifestante de Deus dirige-se aos reis e governantes do mundo, anunciando-lhes o despontar do Dia de Deus, aludindo às mudanças até então inconcebíveis que ganhavam vulto em todo o mundo. E os convoca como fideicomissários de Deus a se levantarem e participarem do processo de unificação da raça humana.

Mais uma vez, as autoridades, instigadas pelo clero muçulmano, temendo a crescente influência de Bahá’u’lláh, não só junto ao povo em geral, como também junto às pessoas proeminentes, decidiram impor a Bahá’u’lláh um novo e final banimento. O local escolhido desta vez foi a colônia-prisão de Akká, na Palestina.

Notória em todo o Império Otomano pelo fétido odor de seu clima e pela existência de várias doenças, Akká, ou São João d’Acre, era uma colônia penal usada para o encarceramento de criminosos perigosos. Bahá’u’lláh chegou à Terra Santa em agosto de 1868 com os membros de sua família e cerca de 70 seguidores que haviam sido exilados com ele.

Os dois primeiros anos de seu exílio em Akká foram vividos na fortaleza-prisão da cidade, sendo transferido posteriormente para uma prisão domiciliar nas proximidades. Em Akká, Bahá’u’lláh continuou a ditar uma série de epístolas que havia iniciado em Adrianópolis, dirigidas a vários governantes da época. Muitas delas continham advertências sobre o julgamento de Deus com relação às suas negligências e desmandos — advertências essas cujo dramático cumprimento provocou intensa discussão pública em todo o Oriente Próximo.

Alguns dos principais governantes do Ocidente que receberam epístolas de Bahá’u’lláh foram: Napoleão III da França, Czar Alexandre II da Rússia, Rainha Vitória da Inglaterra, Guilherme I da Alemanha. O Papa Pio IX, igualmente, recebeu uma epístola de Bahá’u’lláh.

Bahá’u’lláh afirmou ter chegado o tempo no qual a humanidade possui tanto a capacidade quanto a oportunidade de ver o panorama completo de seu desenvolvimento espiritual como um processo único.

“Incomparável é este dia, pois é como olhos para passados séculos e eras, como uma luz para a escuridão dos tempos”.

Os anos remanescentes de sua vida foram devotados a seus escritos sobre um vasto campo de assuntos espirituais e sociais, e para receber os peregrinos que da Pérsia e de outras terras chegavam à Terra Santa com grandes dificuldades.

Bahá’u’lláh veio a falecer em 29 de maio de 1892.

Paz mundial

Em seus escritos aos governantes e aos líderes religiosos, inclusive naqueles dirigidos à humanidade como um todo, Bahá’u’lláh enfatiza a premência da adoção de medidas direcionadas ao que chamou de Paz Maior. Essas medidas, disse, atenuariam os sofrimentos e transtornos que antevia para o gênero humano, até que os povos do mundo venham abraçar a Revelação de Deus e, por meio dela, alcançar a Paz Máxima.

Diz Bahá’u’lláh:

“É homem verdadeiramente quem hoje se dedica ao serviço da humanidade inteira. Que não se vanglorie quem ama seu próprio país, mas sim quem ama o mundo inteiro.”

“A terra é apenas um país, e o gênero humano, seus cidadãos.”

O aspecto distintivo da maturidade da humanidade é que, pela primeira vez na história todo o gênero humano está envolvido, ainda que de forma não totalmente consciente, na percepção de sua própria unidade e da Terra como uma pátria comum. Esse despertar abre caminho para um novo relacionamento entre Deus e a humanidade.

À medida que os povos do mundo aceitem a autoridade espiritual inerente à guia da revelação de Deus para esta era, afirma Bahá’u’lláh, irão encontrar em si mesmos um enorme poder moral, que os esforços comuns têm se mostrado incapazes de engendrar para se alcançar as mudanças necessárias. Uma nova raça de homens surgirá como resultado desse relacionamento, e o trabalho da construção de uma civilização global terá início.

O principal instrumento para a transformação da sociedade e para a realização da unidade mundial, assegura Bahá’u’lláh, é o estabelecimento da justiça nos assuntos da humanidade.

“A luz dos homens é a justiça. Não a apagueis com os ventos contrários da opressão e tirania. O objetivo da justiça é fazer aparecer entre os homens a unidade.”

“O oceano da sabedoria divina encapela-se dentro desta palavra excelsa, ao passo que os livros do mundo não podem conter seu significado mais íntimo.”

“Todos os homens foram criados a fim de levar avante uma civilização destinada a evoluir para sempre.”

“O Todo-Poderoso dá-me testemunho: agir como os animais do campo é indigno do homem. Aquelas virtudes que convêm à sua dignidade são a tolerância, a misericórdia, a compaixão e a benevolência para com todos os povos e raças da terra.”

Bahá’u’lláh, a Manifestação de Deus

Como a Manifestação de Deus para a Era do Cumprimento, ele é o Prometido de todas as Escrituras do passado, o desejo das nações, o Rei da Glória. Para o judaísmo, é o Senhor dos Exércitos. Para o cristianismo, a volta de Cristo na glória do Pai. Para o islamismo, o Grande Anúncio. Para o budismo, o Buda Maitreya. Para o hinduísmo, a nova encarnação de Krishna. Para o zoroastrismo, o advento do Shah Bahram. Assim como as manifestações de Deus que o precederam, ele é tanto a voz de Deus como o seu canal humano.

“Quando contemplo, ó meu Deus, a relação que me liga a Ti, sou impelido a proclamar a todas as coisas criadas: em verdade, eu sou Deus.”

“E quando considero meu próprio ser, ei-lo. Parece-me mais grosseiro que o barro.”

“Certas pessoas entre vós”, declarou ele, “têm dito: ele é quem teve a pretensão de ser Deus. Por Deus, isso é calúnia flagrante. Sou apenas um servo de Deus que acreditou n’Ele e em Seus sinais. Minha língua, e meu coração e tanto meu ser exterior quanto interior atestam não haver outro Deus senão Ele, que todos os outros foram criados a Seu mando, moldados pela operação de Sua vontade. Sou aquele que difunde em toda parte as graças com as quais Deus, por Sua bondade, me favoreceu. Se é nisso que consiste minha transgressão, sou em verdade o primeiro dos transgressores.”

Os escritos de Bahá’u’lláh recorrem a inúmeras metáforas na tentativa de exprimir o paradoxo presente no âmago do fenômeno da revelação da vontade de Deus.

“Sou o falcão real no braço do Onipotente. De cada ave desfalecida, desdobro as asas caídas e lhe impulsiono o voo. Esta é apenas uma folha movida pelos ventos da vontade de teu Senhor, o Todo-Poderoso, alvo de todo louvor. Poderá ela aquietar-se quando sopram os ventos tempestuosos? Não. Por Aquele que é o Senhor de todos os nomes e atributos, eles a movem a Seu bel-prazer.”

Relato de um encontro com Bahá’u’lláh

Apenas dois anos antes de sua morte, Bahá’u’lláh recebeu em Bahjí um dos poucos ocidentais a visitá-lo e o único a deixar um relato escrito da experiência. O visitante era Edward Granville Browne, um jovem orientalista da Universidade de Cambridge, Inglaterra. De seu encontro com Bahá’u’lláh, Browne escreveu:

“Embora vagamente suspeitasse para onde ia e com quem haveria de estar, passaram-se um ou dois segundos antes que eu, palpitante de admiração e reverência, tomasse finalmente consciência de que a sala não estava deserta.”

“No canto onde o divã tocava a parede, sentava-se uma maravilhosa e venerável figura.”

“Jamais posso esquecer-me da fisionomia daquele a quem olhava, embora não possa descrevê-la.”

“Aqueles olhos penetrantes pareciam ler-nos a própria alma.”

“Poder e autoridade residiam naquela testa larga.”

“Não me foi preciso perguntar em presença de quem eu estava, enquanto curvei-me diante daquele que é o objeto de uma devoção e um amor que os reis poderiam invejar e os imperadores almejar em vão.”

Uma voz cheia de dignidade e brandura convidou-me a sentar, e então prosseguiu:

“Louvado seja Deus por teres alcançado. Vieste ver um prisioneiro e exilado. Só desejamos o bem do mundo e a felicidade das nações. Não obstante, consideram-nos provocador de luta e sedição, digno de cativeiro e exílio.

Que todas as nações se tornem uma só em fé e todos os homens venham a ser como irmãos. Que os laços de afeição e unidade entre os filhos dos homens sejam fortalecidos.

Que cesse a diversidade de religião e as diferenças de raça sejam anuladas. Que mal há nisto? E assim há de ser.

Essas lutas infrutíferas, essas guerras ruinosas hão de passar e a paz máxima virá.”

O testemunho de León Tolstói

León Tolstói, famoso escritor e filósofo russo, escreveu:

“Passamos nossas vidas nos esforçando para desvendar os mistérios do universo, que é um prisioneiro persa, Bahá’u’lláh, em Akká, na Terra Santa, quem possui a chave.”

“Os ensinamentos de Bahá’u’lláh nos apresentam agora a forma mais elevada e pura do ensinamento religioso.”

O testemunho da Rainha Maria da Romênia

“Os ensinamentos bahá’ís trazem paz para a alma e esperança para o coração.”

“Aos que procuram a luz, os ensinamentos bahá’ís oferecem uma estrela que os guiará a uma compreensão mais profunda, à certeza, à paz e à boa vontade entre todos os homens.”

O Dia de Deus

O que Bahá’u’lláh considera ser a meta da evolução da consciência humana:

Na perspectiva da eternidade, seu propósito é que Deus veja de forma cada vez mais clara Suas perfeições refletidas no espelho de Sua criação, e nas palavras de Bahá’u’lláh:

“Todo homem possa dar testemunho em si mesmo e por si próprio, no grau do Manifestante do seu Senhor, de que, em verdade, não há Deus salvo Ele.

E todos os homens possam assim alcançar o cume das realidades, até que nenhum deles contemple coisa alguma, seja o que for, sem nela ver a Deus.”

No contexto da história da civilização, o objetivo da sucessão das manifestações divinas tem sido preparar a consciência humana para a unificação do gênero humano como uma única espécie. Na verdade, como um organismo único capaz de assumir a responsabilidade sobre o próprio futuro coletivo.

“Aquele que é o vosso Senhor, o Todo-Misericordioso”, diz Bahá’u’lláh, “nutre em Seu coração o desejo de ver o gênero humano inteiro como uma só alma e um só corpo.”

Enquanto não reconhecer a própria unidade orgânica, a humanidade sequer terá como enfrentar os desafios imediatos, quanto mais os que se encontram mais à frente.

O bem-estar da humanidade, insiste Bahá’u’lláh, sua paz e segurança são irrealizáveis, a não ser que, primeiro, se estabeleça firmemente sua unidade.

Somente uma sociedade global unificada poderá assegurar a seus filhos o sentimento de confiança íntima implícita em uma das preces de Bahá’u’lláh a Deus:

“Qualquer dever que Tu tenhas prescrito aos Teus servos para elogiarem no máximo Tua majestade e glória, não passa de um sinal de Tua graça a eles, para que possam acender à posição concedida ao seu ser mais íntimo, a posição em que conheçam a si próprios.”

Paradoxalmente, só atingindo a verdadeira unidade é que a humanidade poderá cultivar em plenitude a própria diversidade e individualidade. Essa é a meta para a qual a missão de todas as manifestações de Deus conhecidas da história tem servido: o dia de um só rebanho e um só pastor.

Sua realização, Bahá’u’lláh afirma, é o estágio da civilização no qual a humanidade está ingressando agora:

“Ergueu-se o tabernáculo da unidade.

Não vos considereis uns aos outros como estranhos.

Associa-vos aos seguidores de todas as religiões em espírito amigável e fraternal.

Sois os frutos de uma só árvore, as folhas do mesmo ramo.”

 

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