GUARULHOS, BRASIL — Quando se fala em crise educacional no Brasil, os números costumam dominar o debate: taxas de analfabetismo funcional, evasão escolar, desigualdade no acesso ao ensino superior. Mas há uma dimensão menos visível nessa crise — e talvez mais profunda: a de quem nunca aprendeu a nomear os próprios sonhos.
“Como que as massas podem expressar suas ideias sem desenvolver a linguagem necessária para expressar o que pensam?”, questionou o Conselheiro Continental Sr. Pejman Samoori ao relembrar as palavras de ‘Abdu’l-Bahá, filho do Fundador da Fé Bahá’í, em O Segredo da Civilização Divina. E acrescentou: “A ignorância é uma das maiores formas de opressão”.
A afirmação coloca a educação no centro de uma questão que vai além do pedagógico: trata-se de uma questão de justiça. A pergunta, formulada há mais de um século, ressoa hoje com força renovada nas periferias de cidades brasileiras, onde comunidades bahá’ís vêm desenvolvendo, nas últimas décadas, um processo sistemático de educação moral e espiritual — não como alternativa ao sistema formal, mas como um complemento com potencial transformador. Trata-se também de uma questão de coesão, pois, como essas experiências vêm sugerindo, comunidades que aprendem juntas fortalecem um senso compartilhado de responsabilidade pelo futuro — algo que as políticas públicas podem nutrir, mas que se constrói, no cotidiano, pelas relações vividas.
Essas experiências estiveram no centro das reflexões da Reunião Institucional Nacional da Comunidade Bahá’í do Brasil, realizada em abril de 2026, em Guarulhos (SP). O encontro reuniu representantes de todo o país para avaliar os aprendizados dos últimos anos e projetar os próximos passos do esforço coletivo de servir à população brasileira.
O Instituto como instrumento de libertação
No coração desse esforço está o que a comunidade bahá’í chama de processo de Instituto de Capacitação — uma sequência de materiais educativos desenvolvida para ajudar indivíduos de todas as idades, independentemente do nível de escolaridade formal, a refletir sobre sua realidade, desenvolver capacidades de serviço baseadas em valores e assumir responsabilidades crescentes em suas comunidades.
“O Instituto conecta as aspirações e os anseios das populações”, explicou o Sr. Samoori durante o encontro. “A maior parte da nossa população brasileira vive em situação de privação, sem acesso pleno aos direitos básicos. Uma maneira de superar esse cenário é garantir o acesso à educação — não qualquer educação, mas uma que forme mentes capazes de atuar sobre a realidade”.
A concepção que orienta esse processo parte de um princípio que distingue essa abordagem do modelo educacional convencional: ninguém deve ser deixado para trás. Se numa comunidade há cem crianças, a resposta não é atender trinta porque há apenas três educadores disponíveis. A pergunta que se impõe é: como criar as condições para atender a cem?
Essa exigência impulsionou o surgimento de formas criativas de ampliar o alcance das atividades educativas — desde o envolvimento de mães como educadoras, sem pressupor que precisem de uma formação prévia formal, até o uso de materiais que podem ser aplicados aos poucos, conceito por conceito, em visitas domiciliares. Quando alguém não pode participar de um encontro de estudo, mecanismos são criados para que um colega compartilhe os conteúdos. Quando uma criança ainda não sabe ler, leva-se a folha com o desenho, a escritura e uma oração — e a própria mãe a lê com ela.

Aprender fazendo: a capacidade que emerge da prática
Uma das percepções mais marcantes que emergiu das reflexões é que a capacidade de educar não precede a prática; ela nasce dela. Jovens chegam às colônias de férias comunitárias — períodos intensivos de atividades educativas durante o recesso escolar — sem nenhuma experiência como animadores e, acompanhados por outros com um pouco mais de vivência, aprendem enquanto servem. Mães aplicam elementos de aulas para crianças antes mesmo de terem passado por uma formação sistemática — e é justamente essa prática que as forma como educadoras. Gradualmente, outros espaços passam a assegurar o aprofundamento dessas capacidades.
“Quando as pessoas se levantam e se sentem encorajadas a experimentar, a experiência em si gera a capacidade”, observou o Conselheiro Samoori.
Essa lógica vem transformando a natureza dos processos, que passam a se configurar como uma espécie de laboratório de desenvolvimento humano. Na região metropolitana de Porto Alegre, por exemplo, a comunidade tem buscado fazer com que o processo educativo alcance simultaneamente todos os membros de uma mesma comunidade — crianças, pré-jovens, jovens e adultos. A cada ciclo, mais moradores deixam de ser apenas participantes e passam a atuar como promotores de atividades, compartilhando com seus vizinhos os aprendizados adquiridos. O que começa como um encontro de estudo vai, gradualmente, se convertendo em uma rede de aprendizagem mútua — e, com ela, num tecido de confiança que é, em si mesmo, uma forma de justiça: a de ser reconhecido como alguém capaz de contribuir.

Raízes e ramificações: a experiência em Tangará da Serra
Em Tangará da Serra, no Mato Grosso, a presença bahá’í remonta à década de 1990. Mas foi nos últimos anos, com a combinação de um trabalho mais intenso nos centros de atividade e a realização de colônias de férias comunitárias, que algo de qualitativo mudou: a comunidade passou de uma dinâmica de eventos e presença institucional para um engajamento mais profundo com a vida coletiva da cidade.
As colônias, realizadas num parque público, começaram como atividades para crianças e pré-jovens. Com o tempo, tornaram-se ponto de convergência entre o governo local, escolas e organizações da sociedade civil — atores que raramente partilham um mesmo espaço de diálogo, e que aqui foram reunidos não por obrigação institucional, mas pela força de um processo que já estava transformando a vida do bairro.
Em uma avaliação recente, o vice-prefeito comentou que a comunidade havia perdido o sentido de pertencimento — que as pessoas haviam transferido para o poder público toda a responsabilidade pelo bem-estar coletivo, como se faltasse uma visão compartilhada do tipo de comunidade que se quer construir. A observação ilumina uma das tensões centrais da vida democrática contemporânea: quando a responsabilidade pelo bem comum se concentra apenas nas instituições formais, a coesão social se fragiliza — e com ela, a capacidade coletiva de exigir e construir justiça.
“Aos poucos, valores como responsabilidade coletiva e unidade começam a se refletir na forma como as instituições e a comunidade se relacionam”, relatou Tatiane Ferreira, coordenadora regional do Instituto. O parque, que antes era vandalizado e subutilizado, passou a ser cuidado, iluminado e respeitado pela população. E o que começou como um trabalho com crianças em escolas públicas — iniciado a partir da abertura criada por uma professora bahá’í — expandiu-se para múltiplos grupos de pré-jovens e aulas para crianças em turnos distintos, com o apoio ativo da direção escolar.

Jovens que aprendem a sonhar
Talvez a dimensão mais sensível desse trabalho seja a que diz respeito à juventude. Nos centros de intensa atividade comunitária — bairros periféricos onde a presença bahá’í alcançou um alto grau de intensidade nas experiências de serviço contínuo —, uma pergunta tem surgido com frequência entre os jovens: posso sonhar?
“Jovens que, antes de conhecerem esse processo, não tinham o direito de sonhar, porque a vida lhes impunha uma maneira de pensar sobre a própria realidade”, disse o Conselheiro Samoori. A privação de horizontes não é apenas sofrimento individual — é uma forma de injustiça que se perpetua silenciosamente, moldando o que uma geração inteira acredita ser possível para si mesma.
A questão que a comunidade enfrenta não é apenas como envolver esses jovens em atividades de serviço, mas como apoiá-los no desenvolvimento de uma vida coerente — com acesso a uma educação de qualidade, com vínculos familiares e comunitários fortalecidos, com uma visão de futuro que não seja limitada pelas circunstâncias do presente.
No Distrito Federal, o Projeto Vidas Jovens Coerentes tem explorado esse campo de forma sistemática. O projeto oferece, junto aos materiais do processo de Instituto, reforço escolar, preparação para o ENEM e outros processos seletivos, e o estudo de materiais do Programa de Preparação para a Ação Social (PAS), da FUNDAEC — uma sequência curricular que integra as dimensões intelectual, espiritual e prática do desenvolvimento humano.
“O foco está em oferecer tempo, acompanhamento e suporte para que os jovens avancem em sua capacitação”, explicou Carolina Cavalcanti, coordenadora do projeto. “Mais do que prepará-los para acessar oportunidades educacionais, busca-se apoiá-los na reflexão sobre essas escolhas à luz de seus valores, de seu propósito e de sua capacidade de contribuir para a sociedade.”
A proposta é que o jovem deixe de ser alguém que reage às circunstâncias para se tornar um participante ativo na construção da realidade ao seu redor. Não como slogan motivacional, mas como resultado de um processo concreto de aprendizagem e ação.

Da comunidade para a escola: a experiência no Vila Feliz
Esse mesmo princípio — o de que uma educação transformadora precisa acompanhar o jovem em toda a sua trajetória — ganhou uma expressão particular na região metropolitana de Porto Alegre. Ali, no bairro Vila Feliz, o engajamento dos pré-jovens nos programas do Instituto trouxe consigo uma demanda inesperada: eles passaram a pedir ajuda aos seus animadores para lidar com as dificuldades relacionadas ao conteúdo escolar.
A educação formal, então, passou a ocupar as consultas dos grupos de família – arranjos comunitários informais. As mães expressavam uma preocupação que muitas conheciam por dentro: desejavam apoiar os filhos nos estudos, mas não haviam concluído sua própria formação escolar. A partir desses espaços de diálogo, o grupo de educação do agrupamento — formado por professores do bairro, jovens bahá’ís e outros jovens da comunidade — começou a organizar aulas de reforço escolar para crianças e jovens da vizinhança. A diversidade desse grupo não era um detalhe; era o que tornava possível a iniciativa. Cada pessoa trazia algo distinto — conhecimento técnico, presença comunitária, vínculo de confiança — e era justamente essa combinação que conferia ao esforço uma legitimidade que dificilmente poderia ser alcançada por um agente externo isolado.
O passo seguinte surgiu de uma observação concreta: nas proximidades do Vila Feliz funciona um campus de um instituto federal de educação, ciência e tecnologia — o IFSul. A instituição oferece ensino médio integrado a cursos técnicos profissionalizantes, além de bolsas de apoio financeiro aos estudantes. Para jovens que frequentemente precisam conciliar estudo e trabalho para contribuir com a renda familiar, essa combinação — formação acadêmica, qualificação profissional e suporte financeiro — representa uma oportunidade rara.
Reconhecendo isso, o grupo de educação organizou um curso preparatório para o processo seletivo do IFSul, com aulas três vezes por semana, no contraturno escolar dos pré-jovens, abrangendo matemática, português, história e geografia. As mães tornaram-se aliadas fundamentais, incentivando a participação e apoiando a mobilização na comunidade. Em 2025, 70% dos participantes foram aprovados.
Mas a experiência revelou um aprendizado que vai além da taxa de aprovação. “Esses jovens precisam de apoio ao longo de todo o seu percurso educacional”, identificou o grupo — desde a inscrição no processo seletivo até a permanência no ensino médio e, posteriormente, no ensino superior. Quando o nível de exigência aumenta e o suporte diminui, a tendência à evasão se intensifica. Por isso, o acompanhamento não se encerra com a aprovação: o grupo segue em contato com os jovens, visitando-os e reafirmando que podem contar com esse apoio diante de qualquer dificuldade.
Paralelamente, passaram a ser organizadas saídas de campo para museus, feiras de ciências, bibliotecas e eventos de orientação profissional — ampliando o acesso a espaços que esses jovens raramente frequentam. E, reconhecendo que fatores como ansiedade e baixa autoestima também impactam o percurso educacional, foi criado um espaço de acolhimento com o apoio de uma psicóloga da localidade, no qual os estudantes podem trabalhar sua relação com as próprias capacidades.
Há, ainda, uma dimensão à qual o grupo dedica atenção especial: a de que o crescimento intelectual não produza distanciamento em relação ao bairro. Ao contrário, os momentos de reflexão buscam fortalecer a convicção de que a formação adquirida é, antes de tudo, um recurso para contribuir com a própria comunidade. O jovem que ingressa no IFSul não se afasta; ele retorna com mais ferramentas para servir ao lugar de onde veio. Justiça e pertencimento, aqui, não se opõem — se fortalecem mutuamente.
